sexta-feira, 27 de março de 2009

O mendigo e o Dragão

Logo no início do conto, há uma conversa entre dois policiais sobre uma nova operação para eliminarem uma boca de tráfico. O diálogo mostra a corrupção que envolve a decisão dos protetores da lei. Extingue a inocente visão do homem honesto e ético, que na busca de combater os infratores da Lei, também são infratores dessa mesma Lei. Mais adiante, aponta para a incoerente atitude de policiais que atuam na criminalidade.

O texto esbarra no sobrenatural de um modo sutil e com muita naturalidade, dando a impressão de que o extraordinário é bastante habitual. Interessante argumentação por tratar das esquisitices como mais uma faceta da vida entre muitas outras. O sobrenatural pode existir por si mesmo ou através da fantasia, e quem definirá isso será cada sujeito. Essa história permite tal flexibilidade. Podemos ler as fantasias como uma alegoria do texto ou como acontecimentos reais desse conto.

O policial que invadiu a boca utilizou um disfarce de mendigo, e por uma ação fantástica, ficou com aparência de leproso. Esse mendigo sabia da existência de um dragão cuja áurea de corrupção afeta as pessoas ao seu redor, e é justamente com o fruto do crime que é alimentado pelo mendigo, com drogas e armas, para então adormecer e diminuir sua influência maléfica. O mendigo aponta para a esperança do homem na vitória do bem contra o mal.

Conheça o autor do conto Bruno Cobbi.

terça-feira, 24 de março de 2009

Watchmen e Rorschach

O filme Whatchmen é baseado na História em Quadrinhos homônima, escrita por Alaan Moore e ilustrada por David Gibbons, publicada em 12 edições entre 1986 e 1987.
O filme ocorre numa realidade alternativa, na década de 80, na cidade de Nova York, nos EUA. Os personagens principais são ex-policiais que se fantasiam para lutarem contra a violência e a opressão. Devido a atuação dos heróis, a Guerra do Vietnã foi vencida pelos EUA e Nixon foi reeleito presidente.

O Comediante, um dos mascarados, é assassinado. Rorschach, que também integra o grupo de vigilantes, investiga o assassinato, pois é o único que se recusou a aponsentar-se quando uma lei aprovada em 1977 tornou o vigilantismo ilegal. Tem por característica o uso de uma máscara com manchas pretas que mudam de figura.

Dr. Manhatan é o único integrante do grupo que possui poderes diferenciados devido um acidente num reator nuclear. Ele consegue perceber o tempo e o espaço simultaneamente em diferentes dimensões, tornando-o quase onisciente. Ele produz tecnologia para o governo, trabalhando em prol dos ideais americanos.

Ozzymandias, o homem mais inteligente do mundo, revelou sua identidade de herói e obteve lucros astronômicos, tornando-se rico e poderoso.

Destaco esses, entre outros heróis do filme. Porém, tanto a história quanto cada um dos heróis do filme permitem uma longa reflexão. Irei apenas deter-me em transmitir uma informação relacionada ao Rorschach. O personagem mais agressivo do grupo e com uma história de vida bastante comprometida não tem esse nome à toa.

Rorschach é um importante teste de personalidade desenvolvido pelo psiquiatra suíço Hermann Rorschach. A prova consiste em apresentar ao indivíduo pranchas com manchas de tinta (como na máscara do personagem) que deve dizer o que lhe parece. A partir das respostas do sujeito é possível obter um quadro amplo da dinâmica psicológica daquela pessoa.

Quando o personagem é preso, o policial aplica esse teste em Rorschach. O herói manipula os resultados quando imagina cenas violentíssimas e cenas com a mãe, mas suas respostas não apresentam essa agressividade, quando responde borboleta para uma das pranchas. Mostra, assim, a complexidade desse indivíduo.

domingo, 8 de março de 2009

Quem quer ser um milionário?

Jamal é um rapaz pobre que conseguiu ganhar o prêmio máximo em um programa de perguntas e respostas na televisão. Jamal consegue responder às perguntas relembrando sua trajetória de vida, a pobreza, a exploração infantil, a violência e sua paixão por Latika. Há uma discussão, nesse ponto, sobre a aquisição de conhecimento. Espera-se que o participante que conhece as respostas tenha um aprendizado formal. Como não é o caso do personagem, entende-se que ele está fraudando o jogo. Porém, o filme traz a possibilidade de aquisição de conhecimento através das experiências da vida, e não somente pela educação formal através da escola.

O jovem é de uma família indiana mulçumana, o que traz a questão do preconceito e da discriminação racial, religiosa e econômica. Jamal e seu irmão mais velho Salim ficaram órfãos devido à guerra religiosa na Índia e juntos procuraram a sobrevivência. Ambos passaram por situações muito difíceis, mas tomaram caminhos opostos diante da vida. Jamal buscou trabalho e Salim buscou o crime. Aqui, pode-se presumir uma discussão entre o livre arbítrio e o destino. Jamal busca seu destino, sua amada Latika. Salim escolhe o poder e o dinheiro que a vida criminosa pode lhe oferecer. Além da questão destino x livre arbítrio propõe-se uma reflexão sobre os tipos de escolhas que os personagens estabeleceram para suas vidas: amor, dinheiro, poder.

Ao final do filme, quando Jamal e Latika dançam juntos numa espécie de musical hollywoodiano, mostra-se que a escolha para uma vida feliz é o amor, o trabalho, a honestidade, a boa moral. Entretanto, as imagens da trajetória de vida de Jamal que são passadas durante o musical, e que dão a impressão de irem para o passado deixando para o presente apenas a felicidade do amor, apontam para uma crítica social e, até mesmo à Hollywood, indicando que a vida romântica é uma ilusão.

(Slumdog Millionaire, GBR, 2008 - direção: Danny Boyle e Loveleen Tandan; roteiro: Vikas Swarup [romance], Simon Beaufoy)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Operação Valquiria

O filme é baseado em fatos reais do Coronel Claus von Stauffenberg (Tom Cruise) do exército alemão que percebe que os interesses de Hitler não são os melhores para a Alemanha. Ele se une a uma resistência alemã para tentar dar um golpe de estado, cujo principal plano é o assassinado de Adolf Hitler.

Nota histórica: A Operação Valquíria era um plano emergencial para a Reserva do Exército alemão restaurar a lei e a ordem em Berlin caso a cidade fosse bombardeada pelos Aliados. O plano foi aprovado pelo próprio Hitler, mas foi alterado por conspiradores da Resistência Alemã que almejavam tomar o controle das cidades alemãs, desarmarem a SS e prender a cúpula de poder nazista, após o assassinato de Füher em um atentado. A morte de Hitler era crucial para libertar os soldados alemães de seu juramento de lealdade ao Füher. (Wikipedia)


A idéia principal do filme é que não se pode servir à Alemanha e ao Führer ao mesmo tempo. Uma tentativa de mostrar quem nem todos os alemães estavam de acordo com Hitler. O filme envolve o espectador de tal modo que, mesmo sabendo o final, torce para que o golpe dê certo. Provoca no espectador a idéia de que não é possível manter-se isento nessa discussão.

O filme mostra que havia traidores do governo no exército, como o coronel Stauffenberg, porém também aponta para traidores no grupo de resistência à Hitler. Interessante notar que o coronel é um traidor do ponto de vista governamental e é um herói para o mundo devido sua resistência ao holocausto. O espectador se vê torcendo por um militar nazista, embora traidor, e isso aponta para certa ironia, uma possível crítica ao “politicamente correto”.


domingo, 22 de fevereiro de 2009

Dúvida

Em 1964, na escola católica de St. Nicholas, no Bronx (New York), padre Flynn (Philip Seymour Hoffman) tenta modificar os rígidos costumes da escola seguidos pela irmã Aloysius Beauvier (Meryl Streep). Nessa época, a escola aceita seu primeiro aluno negro, Donald Miller (Joseph Foster). Atendendo a solicitação da irmã Aloysius, a irmã James (Amy Adams) conta sobre sua suspeita de que o padre Flynn é exageradamente atento em relação a Donald. Irmã Aloysius dedica-se a banir o padre da escola. A história é contada através do enfoque da dúvida. Diante da questão levantada irmã James fica entre a cruz e a espada, digo, entre irmã Aloysius que diz ter certeza das atitudes pedófilas do padre, e este que nada confirma, procurando abordar o assunto de modo mais reflexivo sobre a natureza humana. O espectador sente-se inserido na trama e compartilha da dúvida tanto dos acontecimentos de pedofilia quanto do discurso de cada um dos personagens envolvidos. O filme levanta questões e as deixam sem respostas.

Durante quase todo o filme, irmã Aloysius afirma que o padre tem atitudes pedófilas e ao ser questionada pela irmã James, diz que tem suas certezas por conhecer as questões humanas. Irmã Aloysius, que nada presenciou, sente tamanha certeza nas próprias fantasias que possui do padre, e não se dá conta disso, pois não consegue entrar em contato com seus próprios sentimentos. Irmã James busca provas concretas e sem tais provas sente-se dividida, ora apoiando a irmã, ora o padre. Por sua vez, padre Flynn acusa a irmã Aloysius de fofoca, e ao se defender levanta questões da ambivalência humana que coloca em dúvida sua própria moral. Tanto a irmã Aloysius quanto o padre Flynn com seus discursos dúbios deixam o espectador em dúvida sobre o que dizem, ora acreditando ora duvidando das acusações e defesas ditas por ambos. O espectador também não sabe em quem acreditar. E no fim do filme, se o espectador tentou buscar a certeza do que ocorreu, na última cena, é crucificado, pois a irmã Aloysius que afirmou sua certeza todo o tempo, alivia em lágrimas todas as suas dúvidas.

Com posicionamentos de câmeras belíssimos, o diretor John Patrick Shanley demonstra a certeza e a dúvida baseadas em suposições em distintos momentos da trama. O filme questiona a possibilidade de acreditar no outro sem provas, embora os envolvidos acreditem em Deus, também sem provas – é uma questão de fé.

O filme não conta a história passada dos personagens, apenas aquela situação única que vivenciamos, porém aponta para a possibilidade de todos terem vivido grandes dificuldades e provações em suas vidas. Esse passado que não é mostrado influencia firmemente nos seus pensamentos e suas atitudes que são baseadas em pré-julgamentos e pré-conceitos adquiridos no caminhar de suas vidas.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

O Leitor - algumas reflexões

O Leitor, romance de Bernhard Schlink, deu origem ao filme de mesmo nome, dirigido por Stephen Daldry, com Kate Winslet (Hanna), David Kross como o jovem personagem Michael, e Ralph Fiennes na idade adulta.

Michael Berg, um adolescente de 15 anos, é iniciado na relação sexual por Hanna Schmitz, cobradora de ônibus, de 36 anos. Seus encontros, que duram um verão, ocorrem como um ritual: banham-se, Michael lê poesias, contos e romances para ela e, então, mantêm relações sexuais. Estabelecem um vínculo profundo, que influenciará suas vidas futuras. A relação tem um fim abrupto, pois Hanna desaparece da vida de Michael, quando é informada de uma promoção no seu trabalho.

Alguns anos depois, Michael inicia a faculdade de direito e com sua turma de colegas e o professor acompanham um processo de acusação a ex-guardas de um campo de concentração nazista. Uma das acusadas e condenadas à prisão é Hanna. Após 20 anos, época em que sairia da prisão, enforca-se na cela, deixando seu dinheiro para ser entregue a umas das vítimas do holocausto, através de Michael.

O filme traz alguns questionamentos e aponta para a complexidade das possíveis respostas em relação ao povo alemão, indicando que qualquer julgamento em relação aos envolvidos não é simples, nem justo.

Em determinado momento do processo, o juiz pergunta à Hanna se ela realmente tinha escolhido 10 mulheres para levá-las à morte, ao que ela responde: “o que o senhor teria feito?” O silêncio é absoluto e o olhar perplexo de todos na audiência indica a complexidade da situação, ampliando a questão sobre a culpa e a conivência dos alemães na morte de tantos judeus. As críticas precipitadas e generalizadas ao povo alemão também podem ser injustas. As situações da vida não são tão simples e as pessoas são complexas o suficiente para impossibilitar uma genérica divisão entre vítimas e culpados.

Hanna, a princípio e aos olhos da testemunha que era prisioneira do campo de concentração, era considerada uma das guardas “boas”, pois escolhia as mulheres doentes para a morte ao invés das jovens e sadias. Desse modo, aponta para a bondade de Hanna numa situação limite, tentando ser um pouco mais justa diante de suas atitudes injustas. Porém, foi dito que ela comandava as outras guardas e era responsável pelo relatório que comprovava a morte das prisioneiras judias. As demais ex-guardas que também eram acusadas nesse processo, apontaram-na como a culpada pelos acontecimentos. Por vergonha de defender-se e confirmar que era analfabeta, Hanna assumiu a culpa para si. Assim, enquanto as outras ex-guardas receberam punições de 4 ½ anos de cadeia, Hanna foi levada à prisão perpétua. Essa situação demonstra a injustiça sofrida por Hanna perante as outras acusadas. Declara um mundo injusto, de verdades escondidas e situações manipuladas, dificultando, senão impossibilitando, qualquer julgamento – justo – diante da observação mais próxima dos fatos.

Outra situação que aponta para a dificuldade de fazer-se justiça é a própria existência desse julgamento que ocorreu a partir da publicação de um livro escrito por uma sobrevivente do holocausto, onde mencionou o nome das ex-guardas. Devido a divulgação midiática, foi aberto esse processo, porém inúmeros outros guardas não foram acusados nem sentenciados pelas suas atitudes. Hanna foi um bode-expiatório, e pagou com sua própria vida.

Michael viveu um grande conflito na época do julgamento, pois percebeu que Hanna era analfabeta e preferiu acusar-se como culpada a admitir-se iletrada. Ele poderia intervir no julgamento a favor de Hanna, porém interferiria na escolha dela. Além disso, precisaria assumir publicamente seu antigo romance secreto com uma ex-guarda que levou dezenas de mulheres à morte. Uma maneira sutil de discutir a responsabilidade moral individual e social, e suas consequências. O limite entre eu e o outro nem sempre é tão definido. Michael, por não influir na escolha de Hanna, foi conivente com sua decisão, e portanto, com uma mentira, com uma injustiça, com sua prisão perpétua. Aponta para a facilidade de acusação de conivência, para a moral individual e social que nem sempre se entrelaçam, para a complexidade de tais decisões que não é observada.

Deflagra que nossas pequenas atitudes parecem irrelevantes quando no âmbito pessoal, porém ganham grandes proporções no social, como no holocausto. A exemplo disso, Michael é responsável por uma nova esperança de vida para Hanna quando decide enviar-lhe gravações de livros para que ouvisse na cela. Porém, ele não responde as insistentes cartas da prisioneira, que começa a definhar de tristeza. No encontro anterior a libertação da acusada, Michael não demonstrou alegrias ou esperanças para Hanna, numa postura fria e distante. Quanto de sua atitude foi responsável pelo suicídio dessa mulher? Quanto se pode culpar Michael por essa morte? E conversando com o passado, quanto se pode culpar Hanna por um romance com um adolescente? Quanto se pode culpá-la por aceitar uma promoção no seu emprego, cuja verdade veio à posteriori? Quanto é possível prever as consequências das nossas escolhas e atitudes? Quando é possível voltar atrás?

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

A alma boa de Setsuan

A alma boa de Setsuan, do dramaturgo Bertolt Brecht, foi dirigida por Marco Antônio Braz e protagonizada por Denise Fraga. Através do humor, procuram evidenciar o embate ético da obra brechtiana.

Nessa montagem da peça, o camarim é montado no palco, onde os atores arrumam-se e aguardam suas entradas. São, também, os atores que mudam o cenário entre um ato e outro com iluminação que permite a visualização das alterações pela platéia. Indica que não há nada por trás, escondido, escuso. As questões são claras, explícitas.

A história é ambientada na China, no povoado de Setsuan. Três Deuses (eu – tudo que está em volta e a pomba ou Espírito Santo, representados por Ary França, sua bicicleta e a pomba em seu ombro) descem a Terra na busca de uma alma boa para provarem que não fracassaram como Deuses. Descobrem Chen-Tê, uma prostituta que por sua bondade recebe um saco de moedas de prata dos Deuses como recompensa. Porém, as pessoas a sua volta a exploram interessadas no seu dinheiro. Sem saber dizer não e sentindo-se abusada por seus conhecidos, Chen-Tê cria outra persona, seu primo Chuí-Ta, para tentar defender-se. Este, inflexível e duro, consegue dirigir seus interesses como um investidor capitalista. Desse modo, Chen-Tê aparece ora como a generosa e meiga Chen-Tê, ora como o austero Chuí-Ta, indicando uma personalidade dividida para lidar com as diversas facetas da vida.

Essa cisão explícita da protagonista destaca os lados bom e mau que constituem cada sujeito. Uma dualidade que nem sempre é percebida ou aceita pelas pessoas. O conflito da personagem indica a dificuldade em lidar com nossas próprias diferenças e ambiguidades.

Não há uma solução para essa dualidade bom/mau do homem. O dramaturgo solicita nossa reflexão sobre o assunto. Talvez, aponte para uma dualidade inerente ao homem, sem solução, apenas a possibilidade de compreensão e de aprendermos a lidar com nossas diversas facetas.

Como uma autocrítica, a peça inicia com o personagem Três Deuses colocando em dúvida a própria existência. Durante a apresentação, questiona-se a moral e a bondade de Deus, que permite misérias, sofrimentos, injustiças, não favorecendo os bons e premiando os maus. No fim da apresentação, a dúvida sobre a existência de Deus é retomada e somada a dúvida da possibilidade da bondade humana.